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Reconhecidas por lei, benzedeiras modernas resgatam tradição e atendem pelo celular

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Em uma tarde de sexta-feira, um grupo de mulheres faz uma roda. No centro dela, galhos de arruda, guiné, manjericão e alecrim espalham o perfume de ervas no ar. “Honrem a ancestralidade. Honrem esse conhecimento que veio antes de nós. O ato de benzer é bem dizer”, diz Maria Bezerra, que lidera o encontro.

Após uma conversa, todos fazem uma oração. Sete mulheres se dividem para realizar os trabalhos. O ritual depende de cada pessoa. Ele pode incluir imposição de mãos, ervas para purificar o corpo, preces para abrir caminhos e espantar as energias negativas.

Enquanto a terapeuta holística Dalkires Reis benze, algumas lágrimas escorrem da mulher atendida. “Estar aqui é oferecer o dom que a gente descobriu”, diz Dalkires. Terminada a bênção, a planta utilizada deve ser jogada na terra para dispersar a energia densa.

As mulheres fazem parte da Escola de Benzedeiras, um grupo de Brasília que se reúne quinzenalmente para aprender e manter a tradição das benzedeiras. Os encontros servem para trocar ensinamentos e abençoar a quem procura. Todos os serviços são gratuitos.


A bênção começa com a formação de uma roda.
Foto de Sergio Dutti/UOL

O encontro desta vez aconteceu num posto de saúde, com atendimento aberto à comunidade. No dia da roda, além dos pacientes indicados pelas enfermeiras, os funcionários da faxina também aproveitaram para receber os bons fluidos.

A iniciativa da Escola de Benzedeiras partiu da assistente social Maria Bezerra, 53. Ela é filha e neta de benzedeiras da Bahia. O ofício vem de longe. “Minha mãe contava que o avô dela conhecia os mistérios de rezador e curador. Ele andava com um cajado meio mágico, que tinha um chocalho de cobra.”

Mas essas práticas se perderam dentro da família. A mãe seguiu a fé em terreiros de umbanda. A avó era católica, se tornou evangélica e deixou de benzer as pessoas por considerar a prática proibida pela Bíblia.

Em 2014, durante um curso sobre sustentabilidade, Maria questionou o seu real propósito de vida. “Nesse dia, no meio da natureza, me aproximei de uma árvore bem antiga. Então me lembrei da minha avó e dos meus antepassados. Eu vi que precisava resgatar essa benzedeira”, lembra.


No centro da roda ficam galhos de arruda, guiné, manjericão e alecrim para espalhar o perfume de ervas no ar
Foto de Sergio Dutti/UOL

Após o episódio, procurou conselhos de outras benzedeiras. Dona Juliana, dona Maria Eduarda e dona Edith foram suas mestras e lhe ensinaram coisas como conversar com as plantas e ter fé.

“Toda benzedeira é muito intuitiva. O mais importante é ter a intenção de cuidar e curar o outro. Aprendi com dona Juliana que, quando olhamos nos fundos dos olhos da pessoa, a gente se comunica. Benzer é estar com o coração pleno de amor. Só assim podemos desejar bem ao outro. A reza é uma conversa com o divino. Não tem fórmula ou curso para isso.”

Preconceito, polícia e a força da lei

A figura da benzedeira é secular, firmemente enraizada no Brasil desde o período colonial. Elas sintetizam os saberes que vieram da cultura africana, europeia e indígena. Seu ofício compreende as rezas de cura e a identificação de folhas, cascas e cipós indicados para o corpo e a alma.

Na crença popular, o benzimento era considerado um dom de Deus. Para cada problema, havia uma oração e um remédio. A fé e ferramentas como terços, ladainhas, defumadores, um copo de vela com água ou estátuas de santos ajudariam a curar males como quebranto, mau-olhado e espinhela caída.

Hoje sua imagem é tradicionalmente associada a senhoras de idade avançada, moradoras do campo, cidades pequenas ou de bairros de periferia. O preconceito sempre foi grande. Elas são chamadas de bruxas, feiticeiras, charlatãs ou pessoas ignorantes.

Em localidades remotas, têm suprido a falta de atendimento médico com ervas medicinais. Muitas benzedeiras já foram denunciadas à polícia por charlatanismo.

Suas consultas também são criticadas por médicos, que temem que o paciente prolongue o tempo até buscar o tratamento para uma possível doença. “Acontece que a nossa sociedade desqualifica aquele sujeito que tem um saber que não é uma fórmula química, mas são as propriedades de uma planta”, afirma Maria.

Somente em 2015, um grupo de benzedeiras do Paraná conseguiu a aprovação da primeira lei do Brasil que reconhece o trabalho que realizam como ofício de saúde popular. Isso significa mais segurança para as rezadeiras.

Apesar dos avanços, atualmente, o ofício corre o risco de se perder por ser apenas passado de geração em geração, pela fala e por convívio.


Terminada a bênção, a planta deve ser jogada na terra para dispersar a energia
Foto de Sergio Dutti/UOL

“As pessoas vêm para cá pelo amor ou pela dor”

As integrantes da Escola de Benzedeiras são adeptas do sincretismo religioso. Embora a religião cristã seja praticada por muitas delas, conceitos diversos como o xamanismo, o budismo e a física quântica, dizem elas, são assimilados na busca por métodos de saúde alternativos.

“As pessoas vêm para cá pelo amor ou pela dor”, conta a bancária Jane de Paula, 49, que começou a benzer neste ano.

Sua busca pela espiritualidade veio após uma forte depressão. Para aplacar a angústia que sentia, estudou filosofia, experimentou o chá do Santo Daime e fez ioga. O “despertar”, como ela prefere dizer, aconteceu em uma oficina da terapeuta paulista Rose Kareemi Ponce, que viaja o Brasil realizando cursos sobre benzedeiras com base na medicina cabocla.

Jane agora atua na Escola de Benzedeiras e diz atender a um chamado. “O despertar foi mágico. Percebi que o autoconhecimento é ancestral. Já estava dentro de mim. E que temos a capacidade de harmonizar a vida diária. A minha reconexão é a certeza de que todos somos um.”

Iniciativas como a Escola de Benzedeiras seguem uma tendência de comportamento da sociedade contemporânea: a busca pelo sagrado feminino. Esse conceito pode ser definido como um movimento ou filosofia de vida. Ele defende a conexão da mulher com a natureza e sua essência sagrada, a ancestralidade e a divindade.


Ervas purificam o corpo e as preces abrem caminhos, segundo a tradição
Foto de Sergio Dutti/UOL

Também valorizam raizeiras, parteiras, xamãs e mulheres que detêm conhecimentos tradicionais. No Facebook, grupos sobre o assunto chegam a ter 50 mil participantes.

“O resgate do sagrado feminino é um retorno à espiritualidade perdida”, diz Maria Bezerra.

Moema Borges, 64, é professora de enfermagem e também atua como benzedeira na escola. Para ela, benzer significa uma prática de cuidado e uma ligação com a força de cada um.

“A gente se desconectou do nosso poder pessoal. Aqui temos a experiência de exercê-lo. Achamos que o tema cura só é possível com um médico. Mas temos essa capacidade de conexão. O que cura é o desejo interior de buscar seu ponto de equilíbrio. Precisamos ter fé e acreditar nesse poder.”

Benzimento virtual

Maria se define como uma benzedeira moderna e diz que a tecnologia pode ajudar quem está longe ou em outras cidades.

“Já benzi uma criança por videoconferência no celular. A mãe ligou à noite. Ela tinha sintomas que pareciam quebranto, mal-estar. Ela ligou o aplicativo, pegou a criança, botou na frente do celular e eu benzi olhando a imagem dela. Fiz isso por três dias seguidos e deu certo.”

As benzedeiras da escola recebem dezenas de pedidos de benzimento à distância. Muitos chegam por e-mail e pelas redes sociais. Os nomes das pessoas são anotados e colocados nas orações coletivas. Às vezes, palavras de conforto podem ser enviadas por WhatsApp.

Os tempos podem ser outros, mas Maria afirma que seu grupo mantém a essência da tradição. “O que todas as benzedeiras tradicionais ou modernas têm em comum é a fé. Nós estamos aqui para resgatar esse legado das que vieram antes de nós e dizer que a gente também está junto.”


‘Toda benzedeira é muito intuitiva’, explica Maria Bezerra, que lidera encontra entre elas
Foto de Sergio Dutti/UOL

Qualquer um pode benzer

“Peço licença ao seu anjo da guarda para te benzer. Ave-Maria cheia de graça, o senhor é convosco”, começa Maria, à minha frente com ramos de arruda. Fecho os olhos. Com a voz baixinha, ela desfia orações e pede a Nossa Senhora que me dê mais tranquilidade.

É minha vez de benzer. Na roda, todos podem tentar se assim desejarem. Escolho três galhos de manjericão para usar em Maria. Sem jeito, não sei por onde começar.

“O principal é se conectar com você mesma, se conectar com a intenção”, ela me diz antes de eu prosseguir.

Respiro forte e penso em imagens de velhos índios, águas de rio e senhoras de cabelos esvoaçantes. Invoco as boas energias para que ela continue sua jornada de cura. As palavras surgem com facilidade e sem pensar.

Ela me agradece com um forte abraço. “Sinto uma força em você. Volte aqui e venha benzer com a gente.”

FONTE: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimasnoticias/2017/07/01/reconhecidas-por-lei-benzedeiras-modernas-resgatam-tradicao-e-rezam-pelo celular.htm#comentarios

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